AUTONOMIA DA TECNOLOGIA
Desde a era industrial a técnica impõe um modo de viver. “A vigilância administrativa do trabalho intensivo na linha de montagem combina-se com o enquadramento ideológico da vida privada”, nas palavras de Mattelart (2007, p. 43).
Hoje, na era digital, a tecnologia continua modificando a sociedade, bem como nossa vida privada, ainda bem que de forma absolutamente diferente da era industrial (em algumas sociedades, diga-se de passagem). Se você está lendo um blog, não preciso dar exemplos, você conhece inúmeros.
Para alguns pensadores, como o filósofo Jacques Ellul, desde a era moderna, a técnica é o entorno no qual acontecem todos os fenômenos sociais. É mais do que dizer que a economia, a política, a cultura são influenciadas ou modificadas pela técnica. Estão situadas na técnica. O entorno do homem era a natureza e passa a ser a técnica.
Não só os fenômenos sociais estão inseridos na tecnologia, mas nosso modo de perceber a realidade.
Don Ihde (1990) analisa que a percepção que temos da realidade é afetada pela tecnologia. O filósofo reflete que tecnologias como o telescópio, as lentes e mesmo uma simples janela, modificam nossa percepção do mundo, do céu, das estrelas, da distância.
“Adão e Galileu”, Don Ihde, 1990. Parcialmente transcrito (tradução livre)
Imaginemos que retornamos ao Novo Eden e ao Novo Adão pré-tecnológico. O que o nosso Adão nu veria com seus olhos nus ao fitar o céu noturno?
[...] Diferentemente da percepção do céu por Adão, nossas percepções não são despidas, mas mediadas. Vemos através de meios óticos, ondas de rádio, espectrográficos, e outras visões mediadas por artefatos tecnológicos. Ao mesmo tempo em que há uma grande distância entre a visão nua do céu estrelado e a percepção dos céus na astronomia contemporânea, a distância por si só é mediada através das nossas tecnologias sensoriais. Isso é o que nos distancia do nosso Adão mítico.”

Telescópio de Galileu
E como já adquirimos a experiência tecnológica, mesmo olhando o céu a olhos nus, jamais teremos a percepção inocente, livre do conhecimento adquirido que nos faz ver as estrelas muito mais longe do que poderiam perceber nossos ancestrais ou nosso Adão nu observando o céu com seus olhos nus.
Nesse sentido, a tecnologia já modificou nossa percepção da realidade, não há como voltar a enxergar como nossos ancestrais. E sobre os valores humanos?
Jacques Ellul alega que “o estado da mente do homem atual está completamente dominado por valores técnicos”. Sim, você, usuário da Web sabe disso. Mas e aí? Problema, solução, ambos?
Ellul propõe que comecemos a pensar pelos falsos problemas, para depois partir para os problemas reais, segundo sua concepção.
- Falsos problemas para Ellul:
1. Falamos diariamente dos inconvenientes do desenvolvimento tecnológico. Aglomeração das grandes cidades, poluição, stress pelo ritmo veloz da tecnologia, etc. Para Ellul, esses inconvenientes se resolvem pela própria tecnologia.
2. Decadência moral nos contextos urbanos, desintegração das famílias, etc. Para Ellul, o contexto ético e os valores morais tradicionais, estão, sem dúvida, em vias de extinção ou “obsoletos”. Entretanto, estaríamos sendo testemunhas da criação de novas éticas tecnológicas com seus próprios valores.
3. Medo de que o homem se afaste dos valores humanos e da força instintiva. Para Ellul surgem mecanismos compensatórios exemplificados pelo erotismo estético de Henri Miller ou da reabilitação do Marquês de Sade. (a autora desse blog entende que essa última questão é datada, certamente era uma questão mobilizadora em 1963)
- Problemas reais para Ellul:
Ao se referir aos “falsos problemas”, Ellul chama a atenção para a “falsa consciência da técnica” e a um possível apagar do que é inerente ao “humano”, como a liberdade, autonomia, criatividade. Convém lembrar, mais uma vez, o período histórico dos textos de Ellul, a sociedade industrial, mecanicista e padronizada.
Agora chegamos à questão do DETERMINISMO TECNOLÓGICO, visão de Jaques Ellul e outros pensadores, como Mc Luhan (o meio é a mensagem) em 1964. As tecnologias impõem transformações sociais e estas são irreversíveis. A tecnologia (ou as tecnologias) seria(m) autônoma(s).
Perguntas de Ellul:
1. O homem é capaz de ser o “amo”, o senhor de sua criação?

Ellul aborda o caráter autônomo da tecnologia e entende que o homem é objeto de certas técnicas e procedimentos. O homem é objeto das técnicas pedagógicas, é objeto da propaganda e que, ao final, o homem vem sendo “espiritualmente adaptado pela sociedade tecnológica. Crêem no que fazem, são os mais fervorosos adeptos dessa sociedade”.
Com autoironia, questiona não só “como” dar uma direção e orientação à tecnologia, mas “quem” poderia fazê-lo?
“- Os filósofos? Sabemos muito bem a escassa influência que esse grêmio tem sobre a sociedade. Além de que, qualquer técnico desconfia dos filósofos e se negam a levar em conta suas reflexões. (palavras de Ellul)
- Os políticos? O poder dos políticos já vem sendo superado pelo poder das tecnologias
(observação da autora do post: isso em 1963, quem dirá hoje, no mundo globalizado no qual a capacidade tecnológica e econômica das Corporações transnacionais tem mais força que os Estados)
- Qualquer um de nós? Os homens poderiam decidir usar ou não uma determinada tecnologia. Poderia ser desde que os homens compartilhassem os mesmos valores, segundo Ellul. Observação da autora do post: movimentos desse tipo estão ocorrendo no nosso século XXI. Há bastante unanimidade no mundo todo sobre evitar tecnologias que ponham em risco o equilíbrio ecológico, por exemplo. ”
O mito do criador x criatura que se torna autônoma, ou pior, se rebela contra o criador está na Bíblia, está na literatura, parece um medo atávico (Freud explica?).
Dr. Frankstein ao se deparar com sua criatura, um quase homem, porém artificial. (uma característica da Tecnologia é ser artificial):
“Foi numa sombria noite de novembro que eu contemplei a realização de minha obra. (…) Era já quase uma hora da madrugada; a chuva batia tristemente nas janelas; e minha vela estava quase consumida quando ao lusco-fusco da luz bruxuleante prestes a extinguir-se, vi abrir-se o baço olho amarelo da criatura. Ela respirava com dificuldade, e um movimento convulsivo agitava seus membros. Como posso descrever minhas emoções ante aquela catástrofe, como reescrever aquela ruína que eu, com esforço infinito e zelo, havia tentado formar?”
Como dr. Victor Frankstein assustado com sua criatura que não havia saído conforme cuidadosamente planejada (tecnologia = artificial) também pensadores se perguntam como o homem pode não perder o controle das criações tecnológicas. Como permanecer “amo” de suas criações.
E Ellul faz sua segunda pergunta sobre Problemas reais:
2. Pode surgir uma nova civilização (civitas) que inclui a técnica?
Para Ellul, o mundo da técnica é o mundo das coisas materiais. A técnica poderia converter o homem imerso em máquinas e objetos, em mais um objeto? Para o filósofo, na sociedade tecnológica, a autoridade última passa a ser o fato, e evidente, o imediato. A técnica garante tão somente a felicidade material. O projeto tecnológico teria ignorado a as externalidades. Ellul observa que, pela primeira vez, podemos aniquilar a vida no planeta. Novamente, convém lembrar o momento da reflexão de Ellul. O mundo no pós-guerra, das experiências ainda muito próximas com a bomba atômica, a espada de Dâmocles da guerra fria.
Por outro lado, se, nesse momento, aqui no Ocidente, a ameaça da bomba atômica parece um pouco mais distante do que no período da tensão bipolar da guerra fria, não custa lembrar que a tecnologia nuclear existe e tem sido fator de ameaça por parte de governos radicais no Oriente.
A sociedade tecnológica, para Ellul, não pode ser uma sociedade genuinamente humana com o homem em primeiro plano. Não pode haver civilização no sentido pleno do conceito, na concepção humanística (humanismo herdado do Renascimento).
Ellul vê o incremento do poder: técnicas policiais, técnicas de governos. Uma vez que o poder se torna absoluto, os valores desaparecem e chama para a questão da técnica e liberdade. A técnica, para Ellul, libera o homem de velhas limitações e opressões naturais, como o escuro, o frio e traz novas opressões.
Ellul conclui que qualquer nostalgia é vã, que não há solução.
Certamente a visão de Ellul sobre a tecnologia é pessimista e muitas questões são datadas. A autora do post é uma entusiasta de primeira hora da tecnologia, mas admito: há que haver reflexão e “nem tudo são flores”. Também não gosto dos autores excessivamente utópicos.
2009: As tecnologias digitais, a Internet como define Fuchs um sistema sócio-tecnológico auto-organizado têm trazido inúmeras questões filosóficas novas. Também acaba trazendo algumas pseudo-filosofias, é bom separar o joio do trigo, mas o principal é observar atentamente o que está acontecendo nesse “admirável mundo novo”, parafraseando Huxley e conhecer não só os apologistas, como os novos críticos da Internet como a terra prometida.
Porque eu, você que me lê, somos mais que observadores, somos partícipes desse processo.
O próximo post sobre Filosofia da Tecnologia convidará Jaques Ellul (1992-1994) para conhecer a era digital. O “papo com Ellul” será meu seminário da disciplina de Filosofia da Tecnologia, posteriormente relatado aqui.
Mais em Filosofia da Tecnologia I:
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Referências:
ELLUL, Jacques. The technological Order. In: MITCHAM, C.; MACKEY.R. Philosophy and Technology. NewYork/London: The Free Press, 1983.
IHDE, Don. Technology and the Lifeworld: From Garden to Earth. Bloomington: Indiana University Press, 1990.
MATTELART, Armand. História da sociedade da informação. São Paulo: Loyola, 2007.
SHELLEY, Mary. Frankestein. Porto Alegre: L&PM, 1997.
E anotações das aulas do Prof. Alberto Cupani







05/10/2009 às 12:30 |
Ale,
saiu algo na folha sobre Frankstein, no caderno Mais neste domingo, veja lá na edição online…na coluna do Marcelo…
Essa discussão do poder da tecnologia é interessante e instigante, tenho trabalhado com a ideia de inevolução, avança e atrasa ao mesmo tempo.
Quanto à modificação humana, sim, com certeza altera a forma de pensarmos e depois a própria socieidade, essa ideia de que tudo é uma técnica é interessante…vivemos nessa rede de homens e máquinas.
Já lestes Latour?
Ciência em Ação?
Tlz ajude a refletir, bom post, vejo que a disciplina está ótima, não conhecia os autores, vou explorar melhor depois,
abraços
Nepô.
05/10/2009 às 19:25 |
Nepô, sua preocupação com a criatura de dr. Frankestein é justa. Eu deveria ter feito uma defesa em favor do tão injustiçado e incompreendido ser criado por Frankestein na obra de Mary Shelley (sobre a obra dela que me baseio). Faço agora, então.
O Marcelo Gleisser lembra que a criatura não era o psicopata perverso interpretado em 1931 por Boris Karloff, ao contrário, gostava de livros, queria conversar com seu criador. O monstro queria ser amado.
O Posfácio da edição que tenho lembra que a criatura era mais sensível que seu criador e questiona como teria sido a reação de Frankestein, se a criatura tivesse saído esteticamente bela.
Sim, li “Jamais fomos modernos” e “Ciência em Ação” do Latour. Nepô, o que podemos concluir é que há muito a compreender e pesquisar sobre essa relação dinâmica entre homem e tecnologia, sociedade e tecnologia, bem como entre gente e TICs. E penso (acho que você também pensa assim) que é um baita campo de estudos pra Ciência da Informação. Ou não é?
Obrigada pelos comentários,
Ale
19/11/2009 às 22:42 |
Oi Ale, vc conhece o livro Homens e Máquinas?
24/11/2009 às 00:46 |
Osame, obrigada pela dica, acabei de achar na Cultura:
Homens E Maquinas: como a tecnologia pode revolucionar a vida.
De Kim Vicente
Encomendando…